Não há pontes para Wigvanquistão

Você pode ler enquanto escuta uma playlist que fiz esses tempos. http://www.plaay.com.br/wigvan/164178/para-se-ressentir/ =)

Fernando Vicente - Atlas
Cada gesto meu é uma forma de adeus. Estou sempre de partida.
Digo isso para que saiba: eu não te queria eterno, eu te queria instante. Instante no qual novas palavras seriam escritas sobre os papéis amassados no chão, que são os dias. Depois, as descartaríamos como aos lembretes na palma da mão que se dissolvem no suor antes que possamos cumpri-los.

Agosto me dói. O mês em que os cafés descem mais amargos – ou eu estou ainda com gosto de maçã na boca? O mês das músicas que danço sozinho e do silêncio na janela à espera de um rosto amigável que me confeite com uma carta daquele país que inventamos juntos.
Em tal país, nome escrito com o meu nome, as pessoas desaparecem no momento em que foram mais felizes. Ninguém sofre com a felicidade com receio de que acabe logo e seus queridos recebem notícia de que foram viajar pelo espaço, missão secreta, por isso não se despediram. As lágrimas são de uma saudade confortável, que machuca um pouquinho, é claro, pois há falta, mas também há promessa de abraço e esperança do regresso. Quem morre, tampouco sabe de sua própria morte. Fica para sempre naquele momento feliz que se repete ao infinito – e ninguém se cansa da felicidade, pois não existe tempo e, nessa nova existência atemporal, não se fala em duração exata para um sorriso.

É permitido sorrir até parecer loucura.

Somos embaixadores desse país inexplorado – não há pontes para Wigvanquistão, geografia de cânions profundos, só chega a lugar seguro quem tiver asas. Por isso, distante do resto do mundo, nós nos permitimos experimentar a felicidade, sabendo que ela era, na verdade, uma forma discreta de suicídio. 
Você diz: “você é meu poetinha” – e eu respondo, com ironia: “Prefiro ser sua puta triste, degaldinando no balcão de uma taberna da Paris de Fitzgerald”. Tenho dezessete anos, mas estou firme em dois propósitos: o de não ser poeta e o de não ser de ninguém. “Como é possível amar alguém como você?” – me pergunta, ofendido com a minha recusa a pertencimentos e eu digo, desafiador e sem refletir direito: “Me ame água!” – e debocho da sua cara amarrada. Mostro: pés descalços, camiseta de gola rasgada, calça suja de terra e cabelo mal cortado: “Foi você quem escolheu me amar bicho.”

Isso para mim era o mesmo que: me aceite, me abrace, me queira. Se não consigo escolher as palavras certas é porque me sinto tão pouco perto do seu casaco caro, três números além do que deveria, por isso dá pra nós dois quando estou com frio e no vento parece capa de super-herói. Sem vocabulário, quando tento pronunciar doçuras tudo o que sai são formas de: “não me ame” e “não me abrace mais.” Há muitas formas de pedir amor, mas a minha preferida é fingir que não me importo.

Você encosta a garrafa de cerveja no meu pescoço: “Sentiu? Você é mais frio que isto daqui. Você é uma pedra de gelo.” Você me exige olhos de marshmallow e corpo de vela, para me derreter sem dificuldade alguma ao encostar nas minhas costas a ponta de um cigarro aceso. Como se houvesse um roteiro do desejo, como se fosse possível catalogar correspondências entre a face e as músicas tristes que tocamos quando ninguém está perto.

Então eu me afasto enquanto você quebra a garrafa na mesa – saio dali frágil como um daqueles cacos de vidro, mais cortante também. Não aceito seus telefonemas, não respondo suas mensagens, viajo. Na mala, esses sentimentos que nunca soube mostrar no rosto por serem tantos. Guardo para que não envelheçam nunca, para que preservem a textura e o gosto da primeira vez que eu senti o vento. Guardo porque não é sempre que eu tenho forças para deixar de amar você.


É Agosto. Foi Agosto durante esses anos todos, mas sinto que agora está no fim. É quando passa um velho conhecido meu com a carta que conta suas notícias. Eu sei o que ela diz: mentiras que eu precisava contar para mim, mas agora estou acostumado com cafés amargos e com o agridoce da vida. Faço com a carta um barco de papel e deixo em um filete de rio para que você aprenda a me amar água. É esse o meu tributo aos nossos dias felizes e à tristeza que fez de você para sempre menino. É também o meu último gesto de adeus.

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