Como desejar Feliz Aniversário a um fantasma


Ao som de (e não necessariamente em ordem):

 
Bathers with a toy boat - Picasso - 1937



“Avião de papel é menos poético que barco de papel, não tem o que discutir”.
“Wig, cê tem mania de começar e terminar o assunto em uma frase.”
“Ruim?”
 “Sei lá, me sinto meio voyeur quando a gente conversa.”
“Pode me interromper.”
“Só não posso discordar.”
“Pode mudar de assunto.” – e uma piscadinha.
         Seu assunto: sabor do café. Amargo, eu prefiro, porque açúcar é disfarce e gosto de sentir as coisas como elas são. Você não concorda, doce é melhor, o grão foi torrado, a amargura não faz parte do café: é consequência do fogo e o assunto acaba. Esta sempre foi a nossa ética do debate: fragmentos de trivialidades jogadas como aviões de papel no ventilador de teto. Do lançamento à aterrissagem: nem cinco segundos.
         Avião de papel não tem nada de encanto, convenhamos. Tem uma sobrevida banal. Ora, se fosse pelo menos uma pipa... Agora o barco, bem, um barco de papel derrete na água. Há uma dramaticidade nisso, percebe? Ele tem duas naturezas, a de barco e a de papel: se ele realiza sua natureza de barco, a água irá dissolvê-lo; se ele não a realiza, nunca experimentará aquela sensação de liberdade pela qual aspirara desde que a minha mão fez sobre ele, folha de caderno, a primeira dobra.
         “Seria mais fácil não fazer dobra nenhuma.”
         “Algumas folhas precisam ser dobradas.”
         “Não é egoísmo querer que a folha seja barco? Veja bem: agora a folha tem uma necessidade de ir para água e essa necessidade irá matá-la. Ela teria sido feliz como rascunho do exercício de Introdução à Lógica.”
         Não, ainda hoje não me parece egoísmo proporcionar à folha a abertura de outro espaço. Penso se devemos falar sobre os cigarros que estraguei com nomes de poetas rigorosamente selecionados. Não vejo graça nenhuma em fumar uma caixa de malboros anônimos. Eu lhe ofereci a possibilidade de fumar um Prévert no déjeuner du matin e um García Lorca na hora do intervalo – com o lembrete: “para se perder no coração de alguns meninos”. Um Whitman antes do almoço, um Drummond às quatro, Li Tai Pe antes de se deitar e um Artaud depois de algum orgasmo. Só queria tornar a fumaça – que você insistia em jogar na minha cara – um pouco mais palavra.
         “Seu maior problema: pensa demais e quer meter poesia em tudo.”
         “É esse o meu estilo de.”
(barulho: pássaro bate no vidro da janela e cai – prefiro pensar que desmaia.)
         “É que estraga, sabe? Como é que vou fumar, por exemplo, Emily Dickinson? Ok fumar Bukowski. Não me importo em fumar Gertrude Stein. Mas a Dickinson... Não faz sentido.”
         “A Dickinson é para se fumar durante um piquenique, por exemplo. Mas também pode ser para dias calmos e suavemente tristes.”
         “Viu? Quero tirar um cigarro aleatório sem me preocupar se ele é para o momento certo. Você estraga o cigarro ao transformá-lo em algo mais belo do que deve ser. Muito contraditório para quem gosta de beber café amargo.”
         Criança, eu gostava um pouco mais de açúcar.  “Com açúcar, com afeto” no rádio, mas preferia escutar “com açúcar, com bicicleta” e imaginava um doce de bicicleta, seria o meu doce predileto, pois teria o poder de dar às minhas pernas a força para que eu me levantasse da cama. Você tem que entender: é a fantasia que me salva, é por isso que sempre tenho perto de mim uma caixa de lápis de cor. Para colorir as cicatrizes. Cores vivas o suficiente para quem me espiar de longe me ver divertido, mas suaves o bastante para que perto, seja possível descobrir os abismos cavados sobre minha pele. Na lama que se acumula dentro deles – a lágrima que escorre em abril e a poeira que o vento insiste em guardar em mim, eu: um lugar abandonado – brinco com meus barquinhos e, na falta de caderno, uso folha seca.
Se folha seca, o naufrágio é silencioso. Se papel, guardo sobre ele as conversas que nunca tivemos – e viajamos juntos, como se a lama colorida fosse atlântico. Gosto das palavras antes de se derreterem por completo, o peso da água abrindo sílaba por sílaba como a saliva abre o sexo de uma mulher se colocada com o peso certo, gemidos são letras esgarçadas, separadas do resto do alfabeto por uma língua que colide com o outro corpo emulando ondas sobre recifes.
“Lembra o versinho bobo que desenhei na capa d’O velho e o mar que te dei de aniversário?”
“E como era?”
“Be free in the sea, be a sea inside me.”
“Esqueci o livro na mesa do restaurante...”
“Não lamento pelo livro e sim pelos post-its que colei para você saber o que de nós havia em cada página.”
“Perdi sua visita guiada.”
Hoje seria seu aniversário e falar de sua ausência não é matéria das mais fáceis. Não consegui pensar no que dar para você este ano, sou novo nisso de comemorar aniversário de fantasma. Ano passado fiquei sentado no nosso corredor preferido da Saraiva, ouvidos cobertos por seis músicas repetidas ao infinito, olhos apoiados: paredes, rostos, livros. Tudo servia como palitos em olhos de personagens de desenho animado – se as minhas pálpebras se encostassem, eu não resistiria ao delírio e inventaria você ali, comigo.
Pensei em me deitar sobre seus ossos, ouvido colado no concreto à espera de qualquer barulho que me iludisse de que havia música ali dentro. Ossos dançantes parecem mais fáceis de carregar, meus joelhos ainda doem e minhas retinas tremem desde que li sua despedida. Poderia fazer mil tsurus com as receitas de café que compilei durante um ano em um caderno decorado com postais do Marrocos. É amargo demais, até para mim, coabitar com um relicário de cafés nunca concretizados – sua companhia é um ingrediente que não acho em lugar nenhum, só um vestígio breve nas poucas mensagens que trocamos em cinco anos.
Foram tantas vezes que eu as reli que o sentimento está todo desbotado e não posso mais vesti-las, me enfiar debaixo delas fingindo que são abraço. Estão frágeis do tempo e uma tentativa de beijo fez um rasgo definitivo entre o que elas eram por si e o que me diziam ao pé da orelha. Concretude perdida e eu tive que aceitar sua existência de eco. Tudo o que fomos juntos, por contaminação involuntária, agora é transparente e intocável como o seu novo rosto.
“Wake up, baby.” – recostado sobre a janela do oitavo andar, seu rosto atravessado pela luz que vem de fora e ameaça me acordar a qualquer instante.
Eu não quero acordar agora, não sei quando irei sonhar de novo, dormir já é difícil, sonhar é quase novidade. Tento me esconder da luz, cabeça debaixo do seu travesseiro, malbec, tabaco e shampoo anticaspa e respiro profundamente, apesar de ainda não gostar de perfume do boticário, para preservar a memória do cheiro que nunca senti em outra cama.
Você se afasta da janela, escuto seus passos molhados do banho, chinelas encharcadas. Escuto seus dedos também molhados, de suor ou do choro que você não disfarça, arranharem o violão que sempre invejei por saber se comportar entre seus braços e sobre suas costas. Eu nunca aprendi a ser manuseado e sempre me comportei melhor quando você me guardava em alguma estante.
“Conhece essa daqui, ó? Começa mais ou menos assim...”
Alguns acordes misturados para confundir de propósito. Parece Bjork, mas era apenas Los Hermanos e assim nos afastamos.
“Não vai me esquecer, hein?”
“Juro.”
“Jura o quê?”
“Sei lá, do que a gente estava falando?”
“Alguma coisa sobre origamis, amargura e poesia.”
“Não faz muito sentido, né?” – você muda a música no violão, “gosto dessa da Scissor Sisters”, você: “ih, errou: é Mika, seu bobo”. E uma risada, daquelas que destruíam meu mundo em pedacinhos e o recompunham logo em seguida apenas com as partes necessárias.
“E esta agora?” – dedilha de novo. Quando tento entender a música, descubro que é o despertador e você é um reflexo compartilhado na pia do banheiro daquela vez. “Como você vai me achar sexy depois de me ver escovando os dentes, cara pálida?” “A gente tá atrasado, Wig, deixa de ser chato!”, antes de quase me matar intoxicado ao borrifar seu desodorante de supermercado.
As pequenas intimidades se atropelam para disputar um lugar no sonho e o mesmo banheiro onde dividimos a pia é também o ônibus onde dividimos fones de ouvido e a festa na qual bebemos no mesmo copo descartável sujo de batom.
Quando eu acordar, eu serei um corpo vazio e você um rasgo sobre meu peito que cor nenhuma é capaz de subverter. Melhor que as pessoas saibam, de longe, que há um pouco de sombra e solidão na minha superfície. Perto, elas poderão ver que é um amor que tive e o motivo de eu não me sentir na obrigação de amar mais ninguém.
Acordo. Não abro os olhos para manter você perto de mim por mais alguns segundos, respiro baixinho para tentar ouvir sua voz e sinto como se andássemos de mãos dadas. É você me conduzindo para o mar com um sopro suave em meu pescoço e meus movimentos são de acordo com os arrepios. À direita, ao centro, à direita de novo. Olhos semicerrados, escrevo feliz aniversário em todos os cantos de mim, chuveiro ligado e me deito no chão à espera da água, eu: barco de papel.